Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Que a graça e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo estejam com todos vós.
Senhor, que nos chamais a viver na unidade do Espírito, tende piedade de nós. Cristo, que nos exortais a interpretar os sinais do vosso amor, tende piedade de nós. Senhor, que nos convida a caminhar em paz convosco e com o próximo, tende piedade de nós.
Imaginem, por um momento, a calma de um observatório astronómico numa noite límpida. Há um silêncio profundo, quase sagrado, onde o único movimento é o ajuste preciso de uma lente que tenta captar a luz de estrelas distantes. O observador não está ali para inventar o que vê; ele está ali para interpretar a realidade, para ler os sinais que o universo lhe envia. São Paulo, na sua carta aos Efésios, convida-nos a uma postura semelhante diante da nossa própria vida. Ele nos exorta a viver 'de modo digno da vocação que recebestes, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros com amor'. É um convite a ajustar o nosso olhar, a limpar a lente do nosso coração para que possamos ver, na trama da nossa existência, o fio invisível que nos une a Deus e uns aos outros.
O nosso querido Benjamin Vo, o nosso Ben, possuía essa rara capacidade de observação. Ele não era apenas um rapaz de intelecto brilhante, capaz de navegar pela complexidade das nuvens digitais ou de desenhar a lógica de um sistema informático. Ele era um observador da vida. Ele olhava para o mundo com uma curiosidade que não era apenas técnica; era, no fundo, uma reverência. Quando ele olhava para um avião, para um Boeing 737 que cortava o céu, ele não via apenas metal e engenharia. Ele via um convite para a descoberta, uma promessa de que o mundo é vasto e que vale a pena explorá-lo. Ele sorria, com aquele brilho nos olhos que a família tão bem conhece, quando falava da sua sonhada 'Con Chim Airlines'. Aquele sorriso era a sua forma de dizer que a vida, apesar de todas as suas incertezas, é um presente que deve ser recebido com alegria.
Mas, hoje, o Evangelho nos traz uma advertência que parece cortar o ar. Jesus diz à multidão: 'Sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu; como é que não sabeis interpretar o tempo presente?'. É uma pergunta que ecoa através dos séculos e chega até nós, aqui e agora. 'Por que não julgais por vós mesmos o que é justo?'. Jesus nos chama a sair da superficialidade, a não nos contentarmos apenas em observar o tempo meteorológico — a chuva que vem, o calor que aperta — enquanto ignoramos o movimento de Deus na nossa própria história. Ele nos convida a uma lucidez que dói, mas que liberta. Ele nos pede que sejamos artesãos da paz, que busquemos o acordo com o nosso 'adversário' antes que seja tarde demais. E aqui, o convite de Cristo encontra o nosso coração cansado.
Alan, Thao e Ryan, quatro meses se passaram desde que o Ben partiu para a casa do Pai. Sei que, neste tempo, a vossa interpretação do 'tempo presente' tem sido marcada por uma névoa que, por vezes, parece não se dissipar. O silêncio da casa, onde antes o riso do Ben e o som dos seus projetos faziam eco, tornou-se um companheiro constante. Sei que há manhãs em que a saudade é um peso que nos paralisa, e que a pergunta sobre o 'porquê' de tudo isto parece não encontrar resposta no céu ou na terra. E, no meio dessa dor, a culpa, essa sombra traiçoeira, tenta por vezes sussurrar nos vossos ouvidos. Pergunta se algo escapou, se o cuidado foi suficiente, se houve alguma falha técnica ou humana no caminho. Deixem-me olhar para vós com a ternura de um Deus que conhece cada lágrima vossa e dizer-vos a verdade: o sofrimento do Ben nunca foi, nem por um segundo, uma falha de quem o amou. Deus não envia a doença, e nenhum cuidado humano, por mais vigilante, por mais técnico, por mais amoroso que fosse, poderia ter evitado o que aconteceu. Vocês amaram o Ben com um amor que é o reflexo do próprio amor de Deus. Aquele rapaz, com a sua mente brilhante e o seu coração de ouro, sabia-se profundamente amado por vós. Deus não vos acusa de nada; Ele apenas vos convida a descansar. Vocês não falharam. A vida é um mistério que nos ultrapassa, mas a morte não tem a última palavra. A última palavra é de Cristo, que nos acolhe no seu abraço eterno, onde não há mais doença, nem cansaço, nem angústia.
O que significa, então, 'interpretar o tempo presente' no meio de uma dor tão profunda? Significa reconhecer que a nossa vida não se resume ao que perdemos, mas ao que recebemos. O Ben foi um presente. A sua doçura, a sua capacidade de se preocupar com os outros — como naquele momento em que, com a pureza de quem ama sem cálculos, ele se dispôs a oferecer todo o seu mealheiro para ajudar o seu tio William, que atravessava um momento difícil — tudo isso é real. Ele não quebrou o mealheiro, ele não o esvaziou, ele não precisou de fazer um espetáculo. Ele apenas ofereceu. Aquele gesto, na sua simplicidade, revelava um coração que já compreendia, aos quinze anos, que a vida não se mede pelo que temos, mas pelo que somos capazes de dar. Esse gesto não se perdeu. Ele está guardado no coração de Deus, como uma semente que continua a dar fruto.
Ryan, meu querido, tu que caminhas lado a lado com os teus pais, tu que conheces o vazio da cadeira ao lado da tua, não tenhas medo de mostrar o teu interior. O teu irmão Benjamin, com aquele sorriso que iluminava o rosto e a curiosidade que o fazia querer entender como o mundo funcionava, continua a olhar por ti. Ele não está longe. Ele está na plenitude daquela curiosidade que ele tinha aqui na terra. Ele está na escola do amor, onde não há mais doença, nem cansaço, nem medo. Vive por ele, Ryan. Vive com a alegria que ele tinha, com a bondade que ele demonstrava. Quando olhares para o céu e vires um avião, lembra-te que ele está lá, na paz de Deus, esperando por ti. Tu és o guardião das memórias que vocês construíram, e esse amor que vos uniu não foi cortado pela morte; ele foi apenas transfigurado. O Ben não foi tirado de ti; ele foi apenas colocado na presença direta daquele Mestre que nos ama a todos.
Interpretar o tempo presente é, acima de tudo, ter a coragem de olhar para a cruz e ver nela não o fim, mas a ponte. Jesus, no Evangelho, fala de pagar a última moeda. É uma imagem de justiça, sim, mas é também uma imagem de reconciliação. Ele quer que estejamos em paz, que não deixemos que as dívidas do passado ou as mágoas do presente nos impeçam de caminhar. Para vós, que sofrem a perda de um filho, a 'dívida' que o mundo parece cobrar é a de ter de continuar a viver quando uma parte de vós parece ter partido. Mas Deus não vos pede que carreguem esse peso sozinhos. Ele vos pede apenas que caminhem, um dia de cada vez, com a mesma confiança que o Ben tinha. Ele era um rapaz que não tinha medo de tentar, que não se envergonhava de falhar, que acreditava que 'tentar é tudo o que importa'. Sejam assim. Tentem viver com a mesma esperança que ele tinha. Tentem encontrar, no meio da vossa dor, um pequeno gesto de bondade, um momento de silêncio, uma oração que seja apenas um suspiro. Isso é o suficiente.
E para todos vós que nos escutais de longe, especialmente as famílias que carregam cruzes pesadas, os pais que velam os seus filhos, os jovens que lutam contra a doença: Deus não está indiferente ao vosso pranto. Ele recolhe cada suspiro, cada noite mal dormida, cada interrogação sem resposta. Jesus não nos promete uma vida sem cruzes, mas promete que Ele mesmo carrega a cruz connosco. Ele não nos tira a dor de imediato, mas dá-nos a força para a atravessar, sabendo que, do outro lado, a luz é mais forte que a escuridão. Não tentem carregar o peso do mundo aos ombros. Façam como o Ben fazia com as suas descobertas: parem um instante, olhem para o alto, deixem o coração respirar. Façam um pequeno gesto de bondade em silêncio por alguém que precisa — um copo de água, uma palavra mansa, um pensamento de paz — sabendo que o amor que demos aos outros nunca se perde. O Ben está bem. Ele descansa na luz do Pai, à espera do dia em que nos voltaremos a sentar juntos à mesa que nunca mais terá fim.
O que levamos daqui hoje, para abrir a porta da nossa semana? Apenas uma coisa pequena, mas verdadeira. O Ben amava observar. Ele gostava de parar e ver o mundo funcionar. Hoje, convido-vos a fazer o mesmo. Não corram. Não tentem resolver o mundo inteiro. Parem. Olhem para o céu, vejam um avião passar, ou simplesmente olhem para uma fotografia do Ben, e digam uma pequena prece, um 'obrigado' silencioso pela vida dele. Acolham a Palavra de Deus como ele a acolheu. Deixem que essa Palavra seja o vosso refúgio quando o mundo parecer pesado demais. A fé não é um sistema de regras; é a certeza de que somos amados. E o Ben, o nosso rapaz da curiosidade infinita, é a prova viva de que esse amor é mais forte que tudo. Ele está em casa, e ele espera por vocês de braços abertos. Que a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus. Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que a bênção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo, desça sobre vós e permaneça para sempre. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.