Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, que conhece cada detalhe da nossa vida, estejam convosco.
Senhor, que nos conheceis pelo nome e contais cada fio de cabelo de nossa cabeça, tende piedade de nós. Cristo, que sois a luz que revela os segredos do coração e dissipa as trevas, tende piedade de nós. Senhor, que nos chamais a não ter medo, pois somos preciosos aos vossos olhos, tende piedade de nós.
Imaginem, por um momento, o silêncio de uma pista de aeroporto antes do amanhecer. A névoa paira sobre o asfalto, e o mundo parece suspenso, esperando por um movimento que ainda não se vê. É um momento de quietude absoluta, onde a precisão é a única coisa que importa. O nosso querido Benjamin Vo conhecia essa quietude. Ele, que encontrava tanta beleza na engenharia dos grandes aviões, que passava horas a observar a lógica dos céus, compreendia que, por trás da vastidão, existe uma ordem, um propósito, uma mão que sustenta cada voo. Para o Ben, a curiosidade não era apenas um exercício da mente; era uma forma de oração, um desejo de tocar a inteligência que desenhou as estrelas e as rotas que ele tanto admirava.
Na primeira leitura de hoje, São Paulo nos fala de uma escolha que precede o tempo. 'Em Cristo fomos também escolhidos, predestinados segundo o plano daquele que realiza todas as coisas conforme o conselho da sua vontade'. Pensem nisto. Antes de qualquer motor rugir, antes de qualquer código ser escrito, antes mesmo de Benjamin abrir os olhos para este mundo, já havia um desígnio de amor. Ele não foi um acaso. Ele foi um projeto de Deus, um filho selado com o Espírito Santo como garantia da sua herança. O Ben viveu essa verdade com uma naturalidade que nos desarma. Ele não precisava de grandes discursos para demonstrar a sua fé; ela transparecia na sua doçura, na sua capacidade de se colocar no lugar do outro, como naquele gesto em que, aos quinze anos, quis oferecer todo o seu mealheiro para ajudar o tio William. Ele não precisou de partir o cofrinho, ele não precisou de esvaziá-lo; a oferta já estava feita no altar do seu coração. Ele já pertencia a Deus, e Deus o chamou para casa no tempo do Seu eterno, não no tempo do nosso relógio.
Mas, é preciso dizer a verdade antes de procurar o consolo. Alan, Thao e Ryan, sei que nestes quatro meses desde que o Ben partiu, o silêncio da casa tem sido um peso que, por vezes, parece insuportável. Sei que há manhãs em que a saudade corta como o vento frio, e a ausência do Ben é uma presença constante, uma cadeira vazia, um riso que não se ouve. E, no meio dessa dor, a culpa tenta sussurrar nas sombras da madrugada, perguntando se algo escapou, se o cuidado foi suficiente, se houve alguma falha. Deixem-me olhar para vós com a ternura de um Deus que conhece cada lágrima vossa e dizer: o sofrimento do Ben nunca foi, nem por um segundo, uma falha de quem o amou. Deus não envia a doença, e nenhum cuidado humano, por mais atento que fosse, poderia ter evitado o que aconteceu. Vocês amaram o Ben com um amor que é o reflexo do próprio amor de Deus. Aquele rapaz, com a sua mente brilhante e o seu coração de ouro, sabia-se profundamente amado por vós. Deus não vos acusa de nada; pelo contrário, Ele recolhe cada lágrima vossa como algo sagrado.
No Evangelho de Lucas, Jesus fala-nos com uma clareza que nos liberta: 'Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas nada mais podem fazer'. Ele nos convida a superar o medo da finitude, o medo da perda, o medo de que a morte tenha a última palavra. Jesus aponta para algo muito maior: 'Não se vendem cinco pardais por duas moedas? E, no entanto, nenhum deles é esquecido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados'. Esta é a promessa que sustenta a nossa esperança. Se Deus conhece cada pardal, cada detalhe minúsculo da criação, quanto mais Ele conhece o Ben, o nosso Ben, que viveu com tanta intensidade e amor? Ele não está perdido. Ele está na memória viva de Deus, onde nada se perde, onde cada sorriso, cada sonho com a 'Con Chim Airlines', cada momento de alegria partilhada com o Ryan, é preservado na eternidade.
Ryan, meu querido, tu que caminhas lado a lado com os teus pais, tu que sabes o que é olhar para o lado e não ver o teu irmão e melhor amigo… não estás sozinho. O Ben continua a olhar por ti. Lembras-te das vezes em que sonharam juntos, das vezes em que o Ben te mostrava o mundo com os olhos da sua curiosidade? Esse amor que vos uniu não foi cortado pela morte; ele foi apenas transfigurado. O Ben está na paz daquele Deus que preparou para ele uma morada eterna. Vive por ele, Ryan. Vive com a alegria que ele tinha, com a bondade que ele demonstrava. Quando olhares para o céu e vires um avião passar, lembra-te de que o teu irmão está lá, na plenitude daquela liberdade que ele tanto buscava.
Às vezes, tentamos entender a vida como um sistema que precisa de ser depurado, como se pudéssemos encontrar o erro que causou a dor. Mas a vida não é um código com erros; é um mistério que nos convida à confiança. O Ben compreendia isso. Ele sabia que o que importa não é a perfeição das nossas mãos, mas a pureza da nossa oferta. Ele, que era tão lógico, tão preciso, rendeu-se à lógica do amor de Deus, que é muito mais vasta do que qualquer infraestrutura que possamos construir. Ele está a ver a face de Deus, aquela face que ele procurou em tantas viagens, nas grottoes de Lourdes e nos recantos do Vaticano. Ele está a descansar no abraço do Pai, à espera do dia em que nos voltaremos a encontrar.
E para todos vós que nos escutais de longe, especialmente as famílias que carregam cruzes pesadas, os pais que velam os seus filhos, os jovens que lutam contra a doença: Deus não está indiferente ao vosso pranto. Ele recolhe cada suspiro, cada noite mal dormida, cada interrogação sem resposta. Jesus não nos promete uma vida sem cruzes, mas promete que Ele mesmo carrega a cruz connosco. Ele não nos tira a dor, mas dá-nos a força para a atravessar, sabendo que, do outro lado, a luz é mais forte que a escuridão.
O que levamos daqui hoje, para abrir a porta da nossa semana? Apenas uma coisa pequena, mas verdadeira. O Ben amava observar. Ele gostava de parar e ver o mundo funcionar. Hoje, convido-vos a fazer o mesmo. Não corram. Não tentem resolver o mundo inteiro. Parem. Olhem para o céu, vejam um avião passar, ou simplesmente olhem para uma fotografia do Ben, e digam uma pequena prece, um 'obrigado' silencioso pela vida dele. Acolham a Palavra de Deus como ele a acolheu. Deixem que essa Palavra seja o vosso refúgio quando o mundo parecer pesado demais. A fé não é um sistema de regras; é a certeza de que somos amados. E o Ben, o nosso rapaz da curiosidade infinita, é a prova viva de que esse amor é mais forte que tudo. Ele está em casa, e ele espera por vocês de braços abertos. Que a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus. Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que o Senhor nos abençoe e nos guarde, que Ele faça brilhar a Sua face sobre nós e nos dê a paz. Ide em paz e que o amor de Cristo vos acompanhe sempre.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.