Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Que a graça e a paz de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco.
Senhor, tende piedade de nós. Cristo, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.
Há manhãs em que a casa parece guardar o eco de passos que já não correm pelo corredor. Não é um barulho alto; é apenas a ausência de um som que conhecíamos de cor. Se pararmos para escutar, o silêncio tem uma textura própria — o vazio de uma cadeira, a luz que entra pela janela e ilumina um canto onde antes havia um livro aberto ou um caderno de rascunhos. É aí, nesse recanto tão ordinário da nossa vida, que a Palavra de Deus vem nos encontrar hoje.
Na primeira leitura, São Paulo escreve aos Efésios com uma densidade que nos tira o fôlego. Ele fala de um plano traçado antes da fundação do mundo: 'Em amor ele nos destinou para sermos adotados como filhos por meio de Jesus Cristo'. Paulo usa a imagem de uma arquitetura invisível, de um desígnio eterno onde nada é deixado ao acaso. Pensem nisso. Antes de qualquer estrela brilhar, antes de qualquer respiração ser dada neste mundo, já havia um lugar preparado, um abraço desenhado na eternidade. O nosso querido Benjamin Vo conhecia bem a linguagem da precisão e da estrutura. Ele, que passava horas a decifrar a lógica dos sistemas, que construía mundos em código e sonhava com a altura dos céus, entendia que por trás de cada complexidade existe uma ordem que faz sentido. Para o Ben, o mundo era um mistério fascinante a ser descoberto. E agora, ele próprio entrou nesse mistério, não como quem tenta decifrar um código, mas como quem repousa naqueles braços que o planejaram desde o início.
Mas dizer isto não apaga o nó que se aperta no peito. É preciso dizer a verdade antes de procurar o consolo. Alan, Thao e Ryan, sei que nestes quatro meses desde que o Ben partiu, a saudade tem dias que pesam como chumbo. Há momentos em que a dor chega sem pedir licença — ao ver um avião riscar o céu, ao lembrar daquele sorriso aberto com que ele partilhava as suas descobertas, ou ao olhar para o quarto onde ele sonhava com a sua 'Con Chim Airlines'. E no meio dessa saudade, por vezes, a culpa tenta sussurrar nas sombras da madrugada, perguntando se algo escapou, se poderíamos ter feito mais, se o cuidado foi suficiente. Deixem-me olhar para vós com toda a suavidade do mundo e dizer o que o próprio Evangelho nos liberta para crer: o sofrimento do Ben nunca foi, nem por um segundo, uma falha de quem o amou. Deus não envia a doença, e nenhum cuidado humano, por mais atento e dedicado que fosse, poderia ter evitado o desfecho desta travessia. Vocês amaram o Ben com um amor inteiro, fiel, luminoso. Aquele rapaz de mente brilhante e de um coração tão doce sabia-se profundamente amado por vós. Deus não vos acusa de nada; pelo contrário, Ele acolhe as vossas lágrimas como a coisa mais sagrada que existe hoje.
No Evangelho de Lucas, Jesus pronuncia palavras severas aos doutores da lei, denunciando aqueles que fecham as portas do conhecimento e criam fardos insuportáveis para os ombros dos outros. Mas vejam o contraste: enquanto os letrados daquele tempo discutiam e armavam ciladas, Jesus afastava-se para amar, para curar, para abrir caminho onde havia apenas becos sem saída. O Ben tinha essa mesma leveza que desarmava qualquer rigidez. Ele não carregava o peso das aparências. Lembrem-se daquela pureza transparente que ele revelou quando, aos quinze anos, quis oferecer todo o seu mealheiro para ajudar o tio William que sofria com a saúde. Ele não precisou de partir o cofrinho, ele não precisou de o esvaziar — o gesto já estava inteiro no altar do seu coração generoso. Ele já entendia, com a sabedoria dos santos, que o que importa não é o que acumulamos nas mãos, mas a disponibilidade de nos darmos por inteiro.
Ryan, meu querido, tu que caminhas lado a lado com os teus pais, tu que conheces o peso de olhar para o lado e não ver o teu irmão e melhor amigo... não estás sozinho. O Ben continua a olhar por ti, com aquele sorriso luminoso que conheces tão bem. Quando vires um avião passar, ou quando lembrares das conversas e dos planos partilhados, lembra-te de que o amor não morre com a morte. O teu irmão está na paz daquele Deus que preparou para ele uma morada eterna.
E para todos vós que nos escutais de longe, especialmente as famílias que carregam cruzes pesadas e as crianças que lutam nos hospitais: Deus não está indiferente ao vosso pranto. Ele recolhe cada suspiro, cada noite mal dormida, cada interrogação sem resposta. Santa Teresa de Jesus, cuja memória hoje celebramos, escreveu que 'a paciência tudo alcança'. Não a paciência fria de quem se resigna à força, mas a confiança de quem sabe que, mesmo no meio da noite mais escura, o Senhor caminha connosco.
O que levamos daqui hoje, para abrir a porta da nossa semana? Apenas uma coisa pequena, mas verdadeira. Não tentem carregar o peso do mundo aos ombros. Façam como o Ben fazia com as suas descobertas: parem um instante, olhem para o alto, deixem o coração respirar. Façam um pequeno gesto de bondade em silêncio por alguém que precisa — um copo de água, uma palavra mansa, um pensamento de paz — sabendo que o amor que demos aos outros nunca se perde. O Ben está bem. Ele descansa na luz do Pai, à espera do dia em que nos voltaremos a sentar juntos à mesa que nunca mais terá fim. Que a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guarde os vossos corações hoje e sempre. Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que o Senhor vos abençoe e vos guarde, e vos conduza pela mão em todos os vossos dias. Amém.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.