Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Irmãos e irmãs, acolhamo-nos mutuamente neste espaço de oração e consolação.
Senhor, que vindes curar os corações atribulados, tende piedade de nós. Cristo, que libertais os cativos da dor e do desespero, tende piedade de nós. Senhor, que nos consolais na nossa fraqueza e tremor, tende piedade de nós.
Meus queridos irmãos e irmãs em Cristo,
Imaginem o silêncio expectante de uma pequena sinagoga na Galileia. O ar está quente, impregnado com o cheiro a poeira e a pergaminho antigo. Um homem levanta-se no meio da assembleia. Não é um estranho; é o rapaz que todos viram crescer, o filho do carpinteiro. Entregam-Lhe o rolo do profeta Isaías. Imaginem o som suave do pergaminho a ser desenrolado pelas Suas mãos... um movimento lento, deliberado, sem pressa. Jesus procura o lugar exato. Ele não lê apenas palavras escritas há séculos; Ele abre a Sua própria vida diante deles. E, depois de ler sobre a libertação, sobre a cura e sobre o ano da graça, Ele faz algo extremamente simples, mas cheio de solenidade: Ele enrola o pergaminho, devolve-o ao assistente e senta-se. Os olhos de todos estão fixos n'Ele. É o silêncio que precede a revelação.
Este gesto de desenrolar e enrolar o pergaminho, este ato de abrir e fechar o livro da vida, é a imagem que quero que guardemos no coração hoje. Cada uma das nossas vidas é como esse rolo. Algumas parecem-nos longas, com muitas colunas de texto escrito; outras parecem-nos curtas, interrompidas a meio de um parágrafo que considerávamos vital. Mas, aos olhos de Deus, nenhuma vida é inacabada. Quando o Senhor enrola o rolo de uma existência terrena, não é para a destruir, mas para a guardar na biblioteca da eternidade, onde cada palavra escrita com amor brilha com uma luz que nunca se apaga.
Hoje, ao reunirmo-nos nesta liturgia, trazemos no peito o peso de um silêncio muito concreto. Faz hoje precisamente cerca de dois meses desde aquele treze de junho de dois mil e vinte e seis, o dia em que o rolo da vida terrena do nosso querido Benjamin Vo foi guardado nos braços de Deus. Dois meses. Para quem está de fora, o tempo parece correr depressa, a vida do mundo continua o seu rumo ruidoso. Mas para ti, Alan, para ti, Thao, e para ti, Ryan... dois meses é o tempo em que a ausência se torna mais nítida. É o tempo em que a casa parece grande demais, em que o silêncio do quarto do Ben se torna uma presença constante, em que a dor deixa de ser um choque inicial para se tornar uma saudade que se senta connosco à mesa todos os dias.
Antes de vos oferecer qualquer palavra de consolo, precisamos de olhar para esta dor com honestidade. Não podemos apressar o vosso luto. A dor de perder um filho, de perder um irmão mais velho, é um território sagrado e terrível. É o vazio daquela cadeira, são os projetos que ficaram por realizar, são as conversas que gostaríamos de ter tido. É perfeitamente natural sentir o coração quebrado. É humano chorar. O próprio Jesus chorou diante do túmulo do Seu amigo Lázaro. Ele não fingiu que a morte não doía. Ele sentiu o rasgão da perda.
São Paulo, na primeira leitura que hoje escutámos, fala-nos com uma honestidade desarmante. Ele diz aos Coríntios: "Apresentei-me diante de vós em estado de fraqueza, com muito temor e tremor." Paulo, o grande apóstolo, aquele que fundou comunidades e enfrentou impérios, não tem vergonha de admitir a sua fragilidade. Ele não vem com discursos brilhantes de sabedoria humana. Ele vem despido de orgulho, confiando apenas no poder de Deus.
Quantas vezes, nestes últimos dois meses, vocês se sentiram exatamente assim? Em fraqueza, com muito temor e tremor... sem saber como dar o próximo passo, sem saber como responder às perguntas difíceis que a vida vos colocou. A nossa fé não nos pede para sermos super-heróis imunes à dor. A nossa fé pede-nos apenas para sermos como Paulo: para permitirmos que, na nossa fraqueza mais profunda, o Espírito e o poder de Deus se manifestem.
E é aqui que o Evangelho de hoje faz o seu caminho de luz no meio da nossa escuridão. Jesus lê na sinagoga: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa-nova aos pobres... para curar os corações atribulados." Quando Jesus fecha o rolo e diz: "Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura", Ele está a dizer que a promessa de Deus não é para um futuro distante, mas para o agora da nossa dor. Ele veio para os corações atribulados. Ele veio para o vosso coração, Alan. Ele veio para o vosso coração, Thao. Ele veio para o teu coração, Ryan. Ele não está longe, a observar o vosso sofrimento de uma distância segura. Ele está no meio de vós, carregando convosco esta cruz que parece pesada demais.
O nosso Benjamin, o vosso doce Ben, era um rapaz de uma inteligência extraordinária. Uma mente brilhante que parecia desenhar o futuro com a facilidade de quem respira. Ele era, como muitos diziam, uma verdadeira fotocópia do seu pai na ambição e no intelecto. Ele olhava para as linhas de código no seu repositório de GitHub, onde programava jogos e aplicações, com a mesma paixão com que os antigos escribas olhavam para os rolos sagrados. Ele via ordem no caos dos dados. Ele tinha uma curiosidade que o levava a explorar os céus, a sua paixão imensa por aves e por aviões comerciais, especialmente o Boeing 737.
Quem de nós não sorri ao lembrar-se do entusiasmo do Ben ao falar da sua futura companhia aérea, a "Con Chim Airlines"? Ele partilhava essa ideia com um brilho tão puro nos olhos, com aquelas risadinhas e sorrisos que desarmavam qualquer um. Para o Benjamin, o céu não era um limite; era um convite para voar alto, para explorar, para criar. Ele via a beleza na mecânica de um voo e na leveza de uma asa.
Mas, meus irmãos, a verdadeira grandeza do Benjamin não residia apenas na sua mente analítica ou no seu brilhantismo tecnológico. A sua verdadeira luz estava no seu coração incrivelmente doce e empático. Há um momento que revela a sua essência de forma tão pura e que não precisamos de dramatizar, porque a simplicidade do gesto fala por si: quando ele tinha apenas quinze anos, ao saber que o seu tio William estava a sofrer as consequências de dois AVCs, o Benjamin, espontaneamente, disse aos seus pais que estava disposto a dar todo o dinheiro do seu cofrinho para ajudar.
Ele não quebrou o cofrinho, o dinheiro não foi necessário porque havia seguro, e o cofrinho permaneceu intacto. Mas a oferta... a intenção pura daquele rapaz de entregar tudo o que tinha, sem que ninguém lhe pedisse, é o que realmente importa. Isso não é apenas generosidade de criança; é a manifestação do amor de Cristo no coração de um jovem. O Ben compreendia, de forma intuitiva, que o valor das coisas não está em guardá-las para nós, mas na nossa disposição de as entregar por amor aos outros.
No entanto, sabemos que a dor da perda traz muitas vezes consigo uma sombra silenciosa e cruel: a sombra da culpa. É uma pedra pesada que muitos pais e familiares carregam em segredo, perguntando-se na quietude da noite: "Será que falhámos em alguma coisa? Será que podíamos ter feito mais? Será que houve um sinal que não vimos?".
Quero dizer-vos isto com toda a clareza do Evangelho, com o mesmo amor com que Jesus respondeu aos Seus discípulos quando Lhe perguntaram quem tinha pecado para que um homem nascesse cego: "Nem ele pecou, nem os seus pais." A doença do Benjamin, a sua partida tão precoce, não foi um castigo. Não foi o resultado de qualquer falha vossa. Não houve nada que vocês pudessem ter feito para evitar isto. Vocês foram pais exemplares. Vocês deram-lhe um amor que muitos filhos não recebem numa vida inteira. Vocês foram o porto seguro dele. O vosso amor foi perfeito, e vocês não devem carregar o peso de uma culpa que não vos pertence. Deus não vos acusa; Ele acolhe-vos. Deixem essa pedra cair. Vocês estão absolvidos de qualquer dúvida. O amor que deram ao Ben foi a maior bênção da vida dele.
Lembramos, com profunda emoção, o sonho que o Alan teve na noite de vinte e cinco de junho. Um sonho tão real, onde o Ben aparecia forte, saudável, sem camisola, vestindo os seus calções verdes. Ele estava ali, à porta daquele quarto 419, e dizia com aquela perplexidade tão humana: "Ba ơi, test nào con cũng qua hết. Con tự thở được bình thường mà... sao con lại bị như vầy?" (Pai, eu passei em todos os testes. Eu conseguia respirar normalmente... porque é que me aconteceu isto?). E o Alan, num abraço apertado, sentindo a frustração e a angústia do seu filho, disse-lhe: "A partir de agora, vais ficar no Céu para sempre." E o Ben, embora com o rosto quase a chorar, parou, olhou para o pai e disse: "Não faz mal, eu vou olhar por vocês."
Este sonho não é apenas uma projeção da mente; é uma mensagem de consolação. O Benjamin passou, de facto, em todos os testes. O teste mais importante da vida não é o da saúde do corpo, mas o do amor do coração. E nesse, o Ben teve nota máxima. Ele aprendeu a amar, a ser generoso, a respeitar e a fazer os outros felizes. Ele agora respira o ar puro da eternidade. Ele não está preso à fragilidade de um corpo doente. Ele está livre.
E depois, no dia vinte e três de julho, o Alan teve outro sonho... um sonho simples, quotidiano, mas cheio de significado. Estavam numa fila para comprar gelados, e foi o Ben quem pagou. No Reino do Céu, meus irmãos, os papéis invertem-se. Na terra, os pais cuidam, pagam, protegem. No Céu, são os nossos entes queridos que já partiram que cuidam de nós, que preparam o banquete, que intercedem por nós. O Ben pagar o gelado é um sinal de que ele agora está na abundância, que ele tem tudo o que precisa e que é ele quem vos acolhe e vos sustenta com a sua intercessão.
Ele agora faz parte desse "Banquete do Céu", ao lado de jovens como o Beato Carlo Acutis, que também partiu aos quinze anos, partilhando a mesma paixão pela tecnologia e pelo amor a Deus. Imaginamos estes dois jovens de mentes brilhantes e corações puros, intercedendo juntos pelos médicos, pelos investigadores, para que um dia a leucemia seja apenas uma memória do passado, e nenhuma outra família tenha de passar por esta dor.
Alan, Thao... a vossa dor é imensa, mas a vossa missão continua. Vocês têm o Ryan. O Ryan precisa de ver em vocês a força para continuar a viver. Não uma força fingida, mas uma força que nasce da esperança. Vocês têm de continuar a viver pelo Ben, sim, mas também com o Ben, que agora vos acompanha de outra forma.
Ryan, meu querido jovem, o teu irmão mais velho, o teu melhor amigo, não te abandonou. Ele está na cabine de pilotagem daquela grande aeronave que é a comunhão dos santos, guiando os teus passos. Quando olhares para o céu e vires um avião a rasgar as nuvens, ou quando ouvires o canto de um pássaro, lembra-te do sorriso do Ben. Lembra-te de que ele quer que tu sejas feliz, que tu estudes, que tu jogues, que tu vivas com a mesma determinação que ele tinha.
O amor do Benjamin continua a dar frutos. O poço de água limpa em Cà Mau, no Vietname, que leva o seu nome — "Giếng Gioan Baotixita" — é o testemunho de que a sua vida continua a gerar vida. O seu nome do meio, Đại Dương, significa "Grande Oceano". E, realmente, a sua bondade é como um oceano que continua a enviar ondas de amor e de água fresca para aqueles que têm sede. A dor de vocês transformou-se em caridade silenciosa, em vida para os outros.
Hoje, ao sairmos por aquela porta, não levemos connosco o peso do desespero. Levemos a imagem do rolo que Jesus leu na sinagoga. O rolo da vida do Ben foi enrolado aqui na terra, mas está totalmente aberto diante do Pai.
Como gesto concreto para o dia de hoje, convido-vos a fazer algo muito simples: façam um pequeno ato de generosidade silenciosa, sem que ninguém saiba. Pode ser uma palavra de carinho a alguém que está triste, uma ajuda a quem precisa, ou simplesmente um momento de silêncio para agradecer a Deus pelo dom que foi, e continua a ser, o Benjamin Vo nas nossas vidas. Deixem que o cofrinho do vosso coração se abra para amar os outros, assim como o Ben ofereceu o dele.
Que a Virgem Maria, que esteve ao pé da cruz e que conhece a dor de ver partir um Filho, vos acolha sob o Seu manto de ternura. Que o Senhor vos dê a paz que o mundo não pode dar.
Benjamin, nosso doce anjo, voa alto na tua "Con Chim Airlines" do Céu. Olha por nós, intercede pela tua família, e guarda-nos na paz até ao dia em que nos reuniremos todos no banquete que nunca terá fim.
Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que o Senhor nos abençoe, nos livre de todo o mal e nos conduza à vida eterna. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.