Que a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco. Iniciamos esta oração em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Senhor, que viestes para curar os corações atribulados, tende piedade de nós. Cristo, que sois a nossa esperança e o nosso refúgio, tende piedade de nós. Senhor, que nos chamais a viver na verdade e na caridade, tende piedade de nós.
Meus irmãos e minhas irmãs…
Se pararmos por um momento e olharmos para um objeto simples, como um copo ou uma taça que usamos todos os dias, raramente pensamos na sua profundidade. Olhamos para a sua forma, para o seu brilho exterior, para a decoração que o envolve. Mas Jesus, no Evangelho de hoje, convida-nos a um olhar diferente. Ele diz: «Limpai primeiro o interior do copo, para que o exterior também fique limpo». Ele está a falar de algo muito mais profundo do que louça; Ele está a falar da arquitetura da alma humana. Ele está a falar daquilo que realmente sustenta a vida quando tudo o resto parece vacilar.
Hoje, ao celebrarmos esta liturgia, estamos a cerca de dois meses daquele dia 13 de junho, quando o nosso querido Benjamin Vo partiu para os braços do Pai. Dois meses é um tempo estranho no luto. Para o mundo lá fora, parece que a vida seguiu o seu curso normal, mas para quem ama o Ben — para o Alan, para a Thao, para o Ryan — estes dois meses podem parecer dois séculos ou, às vezes, apenas dois segundos de um choque que ainda não passou totalmente. É por isso que as palavras de São Paulo na primeira leitura de hoje são tão vitais para nós: «Nós vos pedimos, irmãos, a propósito da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo... não vos deixeis abalar facilmente o espírito, nem vos assusteis».
«Não vos deixeis abalar». Como é difícil ouvir isto quando o chão parece ter desaparecido! Mas Paulo não está a pedir uma frieza emocional. Ele está a pedir que nos agarremos a algo que não muda. Ele está a pedir que olhemos para o «interior do copo», para a essência da nossa fé.
O Benjamin era um rapaz que compreendia, de uma forma extraordinária para a sua idade, como as coisas funcionam por dentro. Enquanto muitos jovens da sua idade olhavam apenas para a superfície dos jogos ou dos telemóveis, o Benjamin mergulhava na lógica, no código, no DevOps, na infraestrutura de nuvem. Ele queria saber como o «interior do copo» tecnológico era construído. Ele tinha essa mente brilhante, uma cópia do seu pai, Alan, que não se contentava com o óbvio. Ele via a beleza na estrutura, na ordem, na matemática que rege o universo.
Mas, sabeis, o que tornava o Benjamin verdadeiramente especial não era apenas a sua capacidade de entender algoritmos complexos de Inteligência Artificial aos catorze anos. Era o facto de que, no seu caso, o «interior do copo» — o seu coração — era ainda mais limpo e brilhante do que a sua inteligência exterior. Jesus critica os fariseus por se preocuparem com o dízimo da hortelã e do cominho, mas negligenciarem o que Ele chama de «coisas mais graves da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade».
No Benjamin, estas «coisas mais graves» eram naturais. Ele não precisava de se esforçar para ser bom; ele era bom. A sua fidelidade aos pais, o seu respeito profundo, a doçura com que sorria… tudo isso vinha de um lugar interior que já estava purificado pela graça de Deus. Penso naquela ideia maravilhosa que ele tinha, que o fazia rir e brilhar os olhos: a «Con Chim Airlines». Para quem não sabe, «con chim» significa passarinho. Imaginem este rapaz brilhante, capaz de discutir negócios e tecnologia de ponta, a deleitar-se com a ideia de uma companhia aérea chamada «Passarinho». Há uma pureza nisso que nos desarma. Há uma alegria que não vem do orgulho, mas de uma imaginação que ainda sabe voar.
O Ben amava aviões, especialmente o Boeing 737. Ele e o pai passavam horas a fazer «airport spotting». Quando olhamos para um avião, o que vemos? Uma massa enorme de metal. Mas o que o faz voar é o que está lá dentro: a pressão, os motores, a lógica da aerodinâmica. O Benjamin era assim. Por fora, um rapaz gentil e discreto; por dentro, um motor potente de curiosidade e amor.
A verdade é que o luto nos faz sentir como se o nosso «interior» estivesse partido. A dor de perder o Benjamin é uma ferida que não se fecha com explicações lógicas, nem mesmo com a matemática que ele tanto amava. Antes de podermos oferecer qualquer conforto, temos de admitir a crueza desta ausência. O Alan sente falta do seu companheiro de sonhos tecnológicos. A Thao sente falta do seu filho doce que a respeitava acima de tudo. O Ryan sente falta do seu melhor amigo, do seu irmão mais velho que era o seu guia. O vazio é real. A cadeira vazia à mesa é real. O silêncio no quarto onde antes se ouvia o teclar rápido de um código novo é real.
Mas é precisamente aqui, nesta verdade nua, que o Evangelho entra como uma luz. Jesus diz que devemos limpar o interior para que o exterior fique limpo. O que é que isto significa para nós hoje? Significa que a nossa esperança não pode ser baseada apenas em aparências ou em palavras bonitas. A nossa esperança tem de estar na «misericórdia e na fidelidade» de Deus, as mesmas virtudes que o Ben viveu.
Lembramo-nos daquele momento em que o Benjamin, com apenas 12 anos, chorou no aniversário de 40 anos do pai, com medo de um dia o perder. Aquelas lágrimas não eram de fraqueza; eram o transbordar de um interior cheio de um amor tão grande que já antecipava a dor da separação. E lembramo-nos daquela oferta silenciosa e magnífica: quando o seu tio William sofreu, o Benjamin ofereceu todo o seu cofrinho. Ele não precisou de o partir, o dinheiro não foi usado, mas o gesto… ah, o gesto revelou o que estava dentro do copo. Não era ganância, não era apego. Era misericórdia pura.
Alan, Thao… vós criastes um filho cujo interior era límpido. Em tempos de tanta superficialidade, o vosso Benjamin era um poço de profundidade. São Paulo diz que Deus nos deu um «consolo eterno e uma boa esperança pela sua graça». Esta esperança não é um desejo vago; é a certeza de que o Benjamin, que tanto amava o céu e os aviões, agora habita o Céu definitivo. Ele não está apenas a observar aviões de longe; ele está na presença dAquele que criou as leis da física e o voo das aves.
Quero falar agora a todos os que nos ouvem, especialmente àqueles que carregam cruzes pesadas, famílias que enfrentam perdas incompreensíveis, ou pais que, como o Alan e a Thao, sentem que uma parte do seu coração foi arrancada. Por vezes, a vida parece um sistema que falhou, um código cheio de erros que não conseguimos corrigir. Mas Deus é o programador supremo. Ele não comete erros de lógica. No mistério da Sua vontade, Ele chamou o Benjamin cedo, não para o tirar de vós, mas para o colocar num lugar onde ele pode interceder por vós com uma força que ainda não conseguimos imaginar.
O Benjamin acreditava que «tentar é tudo o que importa». Que frase poderosa para um rapaz tão jovem! Ele não tinha medo do fracasso; ele tinha medo de não tentar. Hoje, o convite que o Benjamin nos faz, através das leituras de hoje, é para «tentarmos» continuar a viver com a mesma integridade que ele teve. Tentar limpar o nosso interior de toda a amargura, de toda a culpa, de toda a revolta, e deixar que a «misericórdia e a fidelidade» ocupem esse espaço.
Alan, Thao, Ryan… não deixeis que o vosso espírito se abale. O Benjamin está bem. Ele está forte. Ele está a sorrir com aquele sorriso que iluminava a sala. No sonho que o Alan teve, o Ben dizia: «Não faz mal, eu vou olhar por vocês». Acreditai nisto. Ele não é uma memória do passado; ele é uma presença no vosso futuro. Ele é o anjo que agora voa mais alto do que qualquer Boeing 737, sem precisar de combustível, apenas movido pelo amor de Deus.
A «Con Chim Airlines» agora tem uma rota direta entre o Céu e o vosso coração. Cada vez que virdes um pássaro a voar ou um avião a cruzar o azul, sabei que é um sinal de que o Benjamin continua a sonhar convosco, continua a amar-vos e continua a ser o «perfeito quatro» com o Ryan e convosco.
Para terminar, deixo-vos um pequeno desafio para hoje, algo que o Benjamin faria. Procurai uma forma de ser generosos sem que ninguém veja. Tal como ele ofereceu o seu cofrinho, oferecei hoje um gesto de misericórdia a alguém que não o espera. Limpai o interior do vosso coração de um pequeno rancor ou de uma tristeza pesada, e deixai que a luz da fidelidade de Deus brilhe através de vós.
Benjamin Đại Dương Vo, o teu nome significa «Grande Oceano». Hoje, mergulhamos nesse oceano de amor que Deus é, confiantes de que, no final da viagem, todos nos encontraremos no grande aeroporto do Céu, onde não haverá mais partidas, apenas chegadas e abraços que nunca terminam.
Que o Senhor vos encoraje os corações e vos dê força em toda a boa obra e em toda a boa palavra.
Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que o Senhor nos abençoe, nos livre de todo o mal e nos conduza à vida eterna. Permaneçamos em paz e na alegria de sermos amados por Deus.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.