Que a graça e a paz de Deus, nosso Pai, e de Jesus Cristo, o Senhor que nos chama pelo nome, estejam convosco. Iniciamos esta celebração em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.
Senhor, que conheceis o íntimo dos nossos corações, tende piedade de nós. Cristo, que nos vedes sob a figueira da nossa oração, tende piedade de nós. Senhor, que nos chamais a ver coisas maiores no Vosso Reino, tende piedade de nós.
Meus irmãos e minhas irmãs…
Se fecharmos os olhos por um instante e tentarmos imaginar um lugar de paz absoluta, talvez muitos de nós visualizemos uma sombra fresca num dia de calor. Uma árvore de ramos largos, onde o tempo parece parar e onde podemos, finalmente, ser apenas nós mesmos, sem as máscaras do mundo, sem as pressões do desempenho, sem o ruído das expectativas alheias. Na leitura do Evangelho de hoje, Jesus encontra Natanael — que a tradição identifica como o apóstolo Bartolomeu, cuja festa celebramos — e diz-lhe algo que o deixa profundamente abalado: «Antes que Filipe te chamasse, eu vi-te quando estavas debaixo da figueira».
O que estaria Natanael a fazer debaixo daquela figueira? A Escritura não o diz explicitamente. Mas, no contexto bíblico, a figueira era o lugar do estudo, da meditação, da busca honesta pela verdade. Era o refúgio do pensamento. E Jesus, ao dizer «eu vi-te», não está a falar de uma observação distante ou de uma vigilância policial. Ele está a dizer: «Eu conheço o teu mundo interior. Eu vi a tua busca. Eu conheci o teu coração quando estavas no teu momento mais privado e sincero».
Hoje, ao olharmos para a vida do nosso querido Benjamin Vo, a cerca de dois meses daquele dia 13 de junho que mudou tudo, esta imagem da figueira ressoa de uma forma muito especial. O Ben era um rapaz que habitava, com uma naturalidade espantosa, esse lugar do pensamento profundo. Ele não era apenas um jovem que usava tecnologia; ele era alguém que compreendia a arquitetura invisível das coisas. Imaginem este rapaz de catorze anos, mergulhado nos mundos da Inteligência Artificial, do DevOps, das infraestruturas de nuvem… Para muitos de nós, estes são termos abstratos, mas para o Benjamin, eram como os ramos daquela figueira. Eram lugares onde o seu intelecto brilhante se sentia em casa, onde a sua lógica, herdada do pai, Alan, se desdobrava em códigos e sistemas.
Jesus diz de Natanael: «Eis um verdadeiro israelita, em quem não há duplicidade». Esta é, talvez, uma das definições mais bonitas que o Senhor poderia dar de um ser humano. Alguém sem dobras. Alguém transparente. Alguém cujo interior condiz perfeitamente com o exterior. E quem conheceu o Benjamin sabe que esta descrição lhe assentava como uma luva. Ele era um rapaz de uma doçura desarmante, um filho que respeitava os pais com uma reverência que parecia vir de outros tempos, um irmão que amava o Ryan com uma lealdade inabalável. No Ben, não havia segundas intenções. Havia apenas uma curiosidade luminosa e um coração que se oferecia por inteiro.
Lembramo-nos daquela história que o Alan e a Thao guardam no coração: o momento em que o Ben, ao saber que o seu tio William estava a passar por um momento difícil de saúde, ofereceu, sem que ninguém lhe pedisse, todo o dinheiro do seu cofrinho. Ele não precisou de partir o cofrinho, nem o dinheiro foi necessário, mas o gesto… o gesto foi a prova de que debaixo daquela «figueira» de lógica e matemática, batia um coração de carne puríssima. Não havia duplicidade no Ben. Ele via uma necessidade e a sua resposta era o amor total. Ele não ofereceu uma parte; ele ofereceu tudo o que era dele.
Mas hoje, precisamos de falar da verdade antes de procurarmos o conforto. Estamos a dois meses da partida do Benjamin. Dois meses em que a casa parece maior e mais silenciosa. Dois meses em que o Alan, a Thao e o Ryan têm tido de reaprender a respirar num mundo onde o sorriso do Ben já não ilumina fisicamente a sala. A dor, nesta fase, não é um pico agudo; é uma presença constante, como uma névoa que não levanta. É o peso de ver os projetos no GitHub que ele deixou, as ideias para a «Con Chim Airlines» que ele partilhava com tanto entusiasmo, e sentir o nó na garganta porque o futuro que imaginámos para ele foi interrompido.
O pai, Alan, partilhou recentemente um sonho que teve, onde via a família salva de um acidente terrível, onde todos estavam bem, apesar da destruição ao redor. Esse sonho é um grito da alma que tenta processar o incompreensível. É a mente a tentar encontrar segurança no meio do caos. E a resposta de Jesus a Natanael é a resposta que o Senhor dá hoje a esta família: «Verás coisas maiores do que estas».
O que são estas «coisas maiores»? A primeira leitura de hoje, do livro do Apocalipse, dá-nos uma pista. São João vê a Cidade Santa, a Jerusalém Celeste, a «Esposa do Cordeiro». Ele descreve-a com uma precisão que o Benjamin, com a sua mente analítica, teria adorado: doze portas, doze anjos, doze fundamentos de pedras preciosas, muros altos e resplandecentes. O céu não é uma nuvem vaga e abstrata. O céu é uma construção perfeita de Deus. É a infraestrutura definitiva. É o lugar onde a lógica do amor se torna a lei física do universo.
O Benjamin, que tanto amava aviões e aviação, que sonhava com os Boeing 737 e com o céu aberto, agora não precisa de radares ou de planos de voo. Ele está a ver o céu aberto de que Jesus fala no Evangelho: «Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem». O Ben, que tinha esse nome do meio, Đại Dương, que significa «Grande Oceano», mergulhou agora no oceano da glória de Deus. Ele não está perdido; ele está em casa, na cidade cujos fundamentos são o amor dos Apóstolos e a luz do Cordeiro.
E aqui, quero falar diretamente a vocês, Alan e Thao. No meio do vosso luto, por vezes a culpa tenta infiltrar-se. A mente humana é perversa e faz-nos perguntar se poderíamos ter feito mais, se falhámos nalgum detalhe, se a nossa proteção não foi suficiente. Escutem bem: vocês foram os pais perfeitos para o Benjamin. O amor que vocês lhe deram foi a «figueira» sob a qual ele cresceu seguro e feliz. O facto de ele ter partido cedo não é um julgamento sobre o vosso cuidado; é um mistério que só Deus conhece na Sua totalidade. Vocês não falharam. Vocês amaram-no com uma intensidade que muitos não experimentam numa vida inteira. O Ben sabia disso. Ele disse-o naquelas mensagens de Dia do Pai, ele demonstrou-o no respeito e no carinho diário. Sintam-se absolvidos de qualquer dúvida. O vosso amor foi a força dele.
E tu, querido Ryan… o teu irmão Benjamin continua a ser o teu melhor amigo. A ligação entre vocês não era feita apenas de presença física, mas de uma sintonia de almas. Ele agora é o teu intercessor. Quando tu estudares, quando tu jogares, quando tu olhares para o céu, sabe que ele está a «ver coisas maiores» por ti e contigo. Vive com a força dele. Deixa que a curiosidade dele continue a vibrar no teu coração.
O Benjamin deixou-nos um legado que não é feito de coisas materiais, mas de uma forma de estar na vida. Ele acreditava que «tentar é tudo o que importa». Ele não tinha medo de se esforçar no campo de badminton ou nos estudos, mesmo quando era difícil. Ele ensinou-nos que a inteligência, por mais brilhante que seja, só atinge a sua plenitude quando é acompanhada por um coração gentil e generoso.
Hoje, o amor do Ben continua a correr como água limpa. Literalmente. Aquele poço em Cà Mau, o «Giếng Gioan Baotixita», dedicado em seu nome, é um sinal de que a vida do Benjamin continua a dar frutos. Onde havia sede, agora há água. Onde havia tristeza, há agora a memória de um rapaz que queria dar o seu cofrinho para ajudar quem sofria. Esta é a «coisa maior» que Jesus prometeu: que o amor nunca morre, ele apenas se transforma em vida para os outros.
Ao saírem daqui hoje, levem convosco uma pequena tarefa, algo que o Ben faria. Procurem a vossa «figueira» — aquele momento de silêncio e verdade diante de Deus. E, nesse silêncio, façam uma promessa: a de viver com menos duplicidade. A de ser mais transparentes, mais gentis, mais prontos a oferecer o que temos no nosso «cofrinho» interior a quem precisa.
Olhem para o céu hoje. Não procurem apenas aviões. Procurem a luz de Deus que o Benjamin agora contempla face a face. Ele está bem. Ele está forte. Ele está a sorrir, com aquele sorriso doce que nunca esqueceremos, dizendo-nos que o céu está aberto e que o amor venceu tudo.
Que a Virgem Maria, que também viu o seu Filho partir e O reencontrou na glória, vos segure pela mão em cada passo deste caminho. O Benjamin está em paz. E, em Deus, ele permanece connosco.
Amém.
For the intentions entrusted to Ben on our prayer wall:
Movidos pela fé e inspirados pelo divino ensinamento, ousamos dizer:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém.
Que o Senhor nos abençoe, nos livre de todo o mal e nos conduza à vida eterna. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe.
✝ May almighty God bless you: the Father, and the Son, and the Holy Spirit. Amen.